Uma reflexão provocativa sobre poder, ética e as escolhas que definem nossa liderança.

Fonte : Acervo Pessoal
Esta é uma foto que meu filho tirou de mim em um dos campos de Birkenau, na Polônia na pequana e aconchegannte cidade de O?wi?cim.
Naquele dia, caminhando entre as ruas de terra e os galpões de Birkenau que levaram milhões à morte, meu coração ardeu e meu cérebro "fritou". Ali, onde o mal se organizou com eficiência industrial, comecei a anotar os aprendizados mais perturbadores ? e necessários ? da minha carreira como observador e estudioso da liderança.
Sugiro que você leia este artigo até o final. Vai incomodar. Deve incomodar.
Em meus treinamentos, faço vários exercícios, em um deles proponho algo simples e direto: cada líder escolhe 3 referências e registra 3 motivos concretos de inspiração por pessoa, traduzidos em 1 comportamento observável. Em poucos minutos, o ruído vira insight: histórias aparecem, padrões emergem e a conversa sai do abstrato para o prático.

Fonte: Acervo Pessoal
As pessoas escrevem os nomes de seus líderes e porque estes lhes inspiram. Gandhi, Mandela, Steve Jobs, sua avó, seu pai, seu chefe ... os nomes se repetem, as virtudes se alinham.
Ao final, deixo uma pergunta retórica: "O que você tem feito hoje em sua liderança para que um dia o seu nome esteja em um destes post-its?"
Então eu compartilho minha lista, que tem mais de 3 e um dos nomes sempre causa desconforto: Hitler.
Sim, isso mesmo que você leu. Hitler
E você sabe que por muitas vezes os líderes em sala colocaram em seus post-its este e outros péssimos líderes da humanidade com exemplos para inspirar do avesso? Isso sempre me aliviou, afinal e contas sabia que não era o único.
Meu sobrenome é Zanutim, descendente de uma família do Norte da Itália e Sul da Áustria. Nas fotos que tirei em visita a Mauthausen ? campo que operou de 8 de agosto de 1938 até 5 de maio de 1945 ? existe um memorial com os nomes de todos os seres humanos exterminados naquele lugar. Parte dos meus antepassados está lá

Fonte: Acervo Pessoal

Fonte: Acervo Pessoal

Fonte: Acervo Pessoal
Eu e minha familía visitamos campos de concentração e de extermínio pelo mundo por várias razões. Uma delas é honrar nossos ancestrais e aprender sobre a história e a vida. Outra é para nos inspirar a sermos um seres humanos melhores a para mim, um líder melhor.
Ah!! Se puder, assista este documentário e este filme:
?NetflixWatch World War II: From the Frontlines | Netflix Official Site
?NetflixWatch The Photographer Of Mauthausen | Netflix Official Site
Ele me ensina que carisma sem ética é a arma mais letal da história. Que eficiência sem moral produz o mal em escala industrial. Que pequenas concessões éticas se transformam em monstros que devoram civilizações inteiras.
Estima-se que as SS e os alemães construíram mais de 40 mil campos. Dezenas de milhões morreram sob o regime nazista. Não apenas judeus, mas italianos, espanhóis, ciganos, homossexuais, dissidentes políticos ? qualquer um que não se encaixasse na "visão" do líder.
Fonte: ?UshmmOs Campos Nazistas | Enciclopédia do Holocausto
?WikipediaCampos de concentração nazistas ? Wikipédia, a enciclopédia livre
Depois de anos observando os bastidores da liderança e do poder cheguei a uma conclusão perturbadora: a diferença entre um líder e um tirano não está na competência, mas na escolha consciente de onde colocar os freios morais, ou como disseram Jocko Willink e Leif Babin em seu livro Responsabilidade Extrema: Como os Navy Seals Lideram e Vencem, o quanto os líderes toleram seus comportamentos.
As lições que compartilho aqui nasceram de uma pergunta simples que me incomoda há anos: por que líderes inteligentes e carismáticos escolhem o caminho da destruição? E, mais importante: como reconhecer ? e evitar ? essas armadilhas quando o poder bate à sua porta?
Então deixe-me compartilhar algumas lições que anotei durante estes anos sobre como Hitler Me Ensinou (Pelo Avesso)
O que Hitler fez: Hipnotizou multidões com discursos vazios de ética, transformando palavras em armas de manipulação em massa.
O que aprendi: O carisma é como fogo ? pode aquecer uma casa ou queimá-la inteira. Lembro-me de um CEO que conheci, vamos chamá-lo de Roberto. Falava como um poeta, gesticulava como um maestro. Em seis meses, convenceu o conselho a demitir 30% dos funcionários "pelo bem da empresa". Dois anos depois, descobrimos que os cortes financiaram seu iate de 20 milhões.
O que o líder deve fazer: Vincule cada discurso a valores explícitos. Antes de qualquer apresentação importante, pergunte-se: "Que princípio estou defendendo? Dignidade? Verdade? Responsabilidade?"
Tem um exercício que faço com líderes sobre valores negociáveis e não negociáveis, aqueles que o Lencioni chama de Fundamentais (2 ou 3 no máximo) e eu entrego uma longa lista de valores para refletirem e para eles escolherem e ao final eles tem que escrever um Protocolo da Transparência Radical:
Exercício individual: Grave suas próprias apresentações e assista depois. Se você mesmo não conseguir identificar os valores por trás das palavras bonitas, imagine sua audiência.
O que Hitler fez: Criou uma "realidade paralela" repetindo meias-verdades até que se tornassem "a" verdade para milhões.
O que aprendi: A propaganda moderna não precisa mentir descaradamente. Basta selecionar as verdades convenientes. Presenciei isso numa multinacional onde trabalhei como consultor. A cada trimestre, os números eram "contextualizados" até que perdas se transformassem em "investimentos estratégicos" e demissões em "otimização de recursos humanos".
O que o líder deve fazer: Institua a "Política dos Dados Abertos". Crie um "Red Team" ? um grupo independente cuja única função é questionar suas narrativas antes que se tornem públicas.
Pergunta-teste: Se um jornalista investigativo analisasse sua comunicação, encontraria omissões significativas?
O que Hitler fez: Canalizou a frustração nacional culpando grupos específicos, desumanizando-os sistematicamente.
O que aprendi: Quando as coisas dão errado, o instinto primitivo é encontrar um culpado. Vi isso numa empresa de tecnologia que perdeu dados de milhões de clientes. Em vez de investigar falhas sistêmicas, o CEO demitiu publicamente o "responsável pela segurança" ? um funcionário que havia alertado sobre vulnerabilidades meses antes.
O que o líder deve fazer: Implemente a "Cultura do Accountability Sistêmico". Quando algo der errado, a primeira pergunta não deve ser "quem?", mas "como nossos processos permitiram isso?"
Regra de ouro: Proíba linguagem desumanizante. Pessoas cometem erros; sistemas permitem que esses erros se tornem catástrofes.
O que Hitler fez: Concentrou todo o poder, eliminou freios e contrapesos, promoveu apenas bajuladores.
O que aprendi: O poder concentrado é como uma droga. Conheci um fundador de startup que, em cinco anos, passou de líder inspirador a ditador corporativo. Demitia quem discordasse, gritava no meio dos colaboradores, promovia apenas bajuladores. A empresa quebrou em seis meses. Esse foi eu, nos anos 2000.
O que o líder deve fazer: Construa freios e contrapesos intencionalmente. Não por desconfiança, mas por sabedoria.
Teste mensal: Faça uma lista das 10 decisões mais importantes do mês. Quantas você tomou sozinho? Se mais de 3, é hora de repensar sua liderança meu rei e minha rainha!
O que Hitler fez: Criou um ambiente onde ninguém ousava discordar, transformando organizações em câmaras de eco mortais.
O que aprendi: Organizações onde ninguém ousa discordar são bombas-relógio. Lembro de uma reunião em que um diretor apresentou projeções claramente irreais. Todos sabiam que os números estavam errados, mas ninguém falou. Seis meses depois, a empresa perdeu 40% do valor de faturamento bruto.
O que o líder deve fazer: Crie uma "Speak-Up Culture" intencional. Não basta dizer "podem falar"; é preciso estruturar e incentivar o contraditório e mais do que isso ter uma escuta atenta INTENCIONAL.
Regra pessoal: Se você passou um mês sem ouvir uma discordância significativa, não é porque está sempre certo. É porque as pessoas pararam de confiar em você. Se você ainda não leu outros IGESIA, leia o que falo sobre vulnerabilidade do líder e do time.
O que Hitler fez: Usou objetivos "grandiosos" para justificar qualquer atrocidade.
O que aprendi: "É pelo bem maior" justificou mais atrocidades na história do que qualquer outra frase. Conheci um diretor de ONG que queria "salvar o planeta" e começou falsificando relatórios para conseguir mais doações. Quando foi descoberto, não apenas destruiu a organização, mas manchou a causa que dizia defender.
O que o líder deve fazer: Defina sucesso com limites éticos explícitos.
Regra inegociável: Se um objetivo exigir violar direitos fundamentais, é o objetivo que precisa mudar, não os princípios. Seja fiel.
O que Hitler fez: Criou sistemas eficientes que amplificaram o mal em escala industrial.
O que aprendi: Uma máquina bem oleada pode produzir tanto remédios quanto veneno. Presenciei isso quando acompanhei um projeto para uma empresa de cobrança que "otimizou" seus processos a ponto de destruir vidas. Tudo muito eficiente. Tudo moralmente repugnante. Este me embrulhou o estômago, sai dele e nunca mais fiz projetos para este tipo de empresa.
O que o líder deve fazer: Acrescente "travas morais" a todos os processos. Eficiência sem ética é barbárie sofisticada.
Pergunta-chave: Este processo funcionaria se fosse aplicado a mim ou à minha família? Como eu conto isso para meus filhos quando chegar em casa?
O que Hitler fez: Cultivou um culto à personalidade que eliminou o pensamento crítico.
O que aprendi: Quando o líder vira mito, a organização perde a capacidade de pensar. Presenciei empresas onde funcionários citavam frases do CEO como escrituras sagradas. E um dos trabalhos que fiz, está conectado com o nível 5 da liderança de Jim Collins e os 5 níveis da liderança de John Maxwell, que foi trabalhar profundamente com líderes sobre o pináculo e ser mais ensinável, humanizado e espiritualizado.
O que o líder deve fazer: Cultive o processo e os princípios, não a personalidade. Você deve ser substituível ? e isso é uma virtude, não uma fraqueza. Líderes extraordinário produzem líderes nível 4. Depois vou escrever outro artigo sobre isso no Igesia. Fique atento!
Teste de ego: Se você fosse atropelado por um ônibus amanhã, sua organização saberia continuar? Se a resposta for não, você falhou como líder. (me perdoe pelo exemplo)
O que Hitler fez: Cooptou especialistas e distorceu dados para legitimar políticas nocivas.
O que aprendi: Dados podem ser torturados até confessarem qualquer coisa. Lembro de uma empresa farmacêutica que contratou três institutos para estudar efeitos colaterais. Publicaram apenas o estudo que minimizava os riscos. E me lembro de ter assistido o filme O Jardineiro, filme que super indico para você.
O que o líder deve fazer: Garanta independência técnica real. Especialistas cooptados são piores que a ignorância ? pelo menos a ignorância é honesta.
Regra de ouro: Se você só aceita pesquisas e dados que confirmam suas crenças, não está fazendo ciência ? está fazendo propaganda com uniforme.
O que Hitler fez: Implementou o autoritarismo em pequenos passos, normalizando gradualmente o inaceitável.
O que aprendi: O autoritarismo não chega de uma vez ? ele se infiltra. Acompanhei uma empresa onde, em dois anos, passou-se de "monitorar e-mails corporativos" para "rastrear localização de funcionários 24h". Cada passo foi justificado. Cada passo normalizou o próximo. E como se diz: foi o fim da moral!
O que o líder deve fazer: Estabeleça linhas vermelhas explícitas e revisões éticas trimestrais.
Pergunta final: Se você tivesse que explicar suas decisões dos últimos seis meses para seu filho e sua filha, conseguiria fazê-lo sem se envergonhar?
Caminhando pelos campos e em especial Birkenau e Mauthausen, onde meus antepassados foram exterminados, compreendi algo fundamental: Hitler não era um monstro de outro planeta. Era um ser humano que fez escolhas.
Escolhas que começaram pequenas. Escolhas que pareciam "práticas" no momento. Escolhas que foram normalizadas até que o impensável se tornasse rotina.
A diferença entre liderança e tirania não está nos resultados, mas nas escolhas diárias que fazemos quando ninguém está olhando.
Cada uma dessas lições nasceu de fracassos reais ? alguns que presenciei, outros dos quais participei. Não escrevo como quem nunca errou, mas como quem aprendeu que o preço do erro, quando você tem poder, é sempre pago pelos outros.
O poder não corrompe automaticamente. Mas revela quem realmente somos quando as máscaras caem. E como costumo dizer em meus encontros com os líderes: o autoconhecimento é um dos pilares da gestão das emoções.
Quando chega nossa vez de liderar, que tipo de líder escolheremos ser, hein?
A resposta está nas pequenas decisões de hoje. Nas reuniões de amanhã. Na próxima vez que alguém discordar de nós. Na próxima vez que tivermos que escolher entre o conveniente e o correto. No respeito às pessoas e a diversidade de seres humanos que temos no mundo. No carinho e no cuidado com as relações, no amor incondicional ao próximo, tratando meu semelhante como semelhante e como sempre digo: tratando gente como gente deve ser tratada, como gente.
E sabe por que Hitler Continua Me Ensinando?
Porque ele me lembra, todos os dias, que liderança é uma escolha moral constante não é uma posição.
Porque ele me mostra que competência sem ética produz os piores horrores da humanidade.
Porque ele me ensina que o mal não precisa ser óbvio para ser devastador ? pode vir disfarçado de eficiência, patriotismo, visão de futuro.
Porque ele me força a perguntar, a cada decisão: "Estou construindo pontes ou cavando abismos?"
Hitler me inspira a ser exatamente o oposto de tudo que ele representou.
E se isso incomoda você, ótimo. Deveria incomodar. Porque líderes confortáveis são líderes perigosos.
P.S.: Se você chegou até aqui e se reconheceu em alguma das "armadilhas", não se desespere. O primeiro passo para não cair no abismo é reconhecer que ele existe. O segundo é construir pontes para longe dele. O terceiro é ajudar outros a fazer o mesmo.
Porque, no final das contas, liderança não é sobre ser seguido. É sobre formar outros líderes. E líderes éticos não nascem ? são cultivados, uma escolha consciente por vez.
A escolha ? sempre ? é nossa.
Fui!!